UM ABRAÇO TRISTE
Hoje abraçei minha Tristeza.
Ela é bela.
Nela habita tudo
O que fui, mas não fiz,
As memórias que,
Se boas, doem,
Porque minha Tristeza é sensível.
E se más,
Trazem lágrimas
Que a Tristeza beija
Asséptica,
Saliva de gato na ferida exposta.
Juntos ficamos no quarto,
Deitados na cama,
Vendo os reflexos
Dos carros
Que na rua passam
E que o sol fotografa no teto.
Cortei a margarida que
Cultivei na janela,
E, com ela, ornei
Seus etéreos cabelos.
Tomamos café
Coado em remorso
E adoçados com
As alegrias que nunca tive.
Ela leva à xícara aos lábios,
Sorve o aroma
De nossos problemas insolúveis,
Fita-me com seus grandes olhos
Trêmulos e atentos.
Diz: “Você é um fofo, meu bem,
Mas não é o único.”
Então, de um gole só,
Esvazia a xícara,
Levanta-se,
Pisca-me o olho direito
Malandramente
E desvanece lentamente.
Estranho…
Deveria ficar alegre.
Mas sua partida
E o café travado na boca,
Deixam um aroma do nada
Que poderia ter sido.
E, tão rápido como a vida,
O dia termina...



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