CONTANDO
Ele acabara de dar ao irmão a boa nova: estava liberado da clínica de reabilitação. Estava limpo e, finalmente, tivera alta.
Passara 04 meses confinado por abuso de cocaína.
Teve uma overdose num quarto de motel, numa festa particular que dava para duas “amigas”.
Quase passara desta para melhor.
Uma das “amigas” chamou os paramédicos. Foi o que o salvou.
E o condenou, quase voluntariamente, à internação.
“Cheguei ao limite”, pensou.
Concordou com a internação na seria conversa que teve com o irmão, única família que lhe restara.
Quase discutiu quando o irmão disse que a internação seria involuntária para que cumprisse o período integral de limpeza e não pudesse sair quando quisesse, direito daqueles que se internam por livre e espontânea vontade.
--- O que você quer que eu faça? Eu te vi cercado de putas assustadas, desmaiado na cama com o nariz sangrando. Não te julgo por isso. Apenas quero garantir que isso não ocorra mais. Não faz mal para mim, faz é para você.
Ele teve que concordar e cumpriu os 04 meses de intoxicação que a clínica impunha aos internos involuntários.
O tempo não passou voando. Passou escorrendo lentamente por ampulheta.
Aos internos, não era permitido consultar as horas. Nem enfermeiros nem médicos nem seguranças podiam dizer data e hora aos internos. Era um dos fundamentos da doutrina de desintoxicação da clínica.
A clínica queria ocultar, paralisar o tempo para que o interno não o contasse e assim, não soubesse o quanto passava sem drogas e sua abstinência fosse amenizada.
Nem o NA, diário e obrigatório, falava quantos dias um interno estava limpo.
Os internos em sua quase total maioria, não sabia o dia e o mês do ano em que se encontravam.
Isso o desesperava. Era compulsivo em questão de horário. Consultava o relógio constantemente e gostava de saber sua localização temporal. Dava-lhe mais segurança, confiança.
E o tempo se arrastava. Lento e sem direção.
Decidiu observar as fases da lua e a posição das sombras.
Mas a abstinência não o deixava se concentrar.
E o tempo lento e sem direção arrastava-se no conta gotas dos dias.
Até que a notícia de sua alta o liberou do “cárcere”em que se encontrava.
Finalmente poderia se mover para onde quisesse com a segurança de quem conseguiu iluminar algo dentro de si. Pois, apesar do doloroso processo, ou mesmo por causa dele, não sentia mais falta de drogas.
E poderia voltar a contar o tempo sem preocupações.
E foi nesse estado que comunicou ao irmão a notícia de sua alta.
--- Você vem me buscar?
--- Claro, só espere um pouco. Preciso me arrumar. Hoje perdi hora. Até mais.
Mas o irmão não vinha.
Não tinha a mínima ideia de quanto se passara desde a conversa até agora.
Parecia uma longa demora.
Mas, por mais que insistisse, afinal estava de alta, não lhe davam horas nem data.
Mesmo com a alta, a clínica era responsável por ele enquanto lá permanecesse.
Suspirou e tentou prestar atenção nas sombras e seus movimentos e posições, na esperança de, com isso, ter uma ideia do tempo que estava passando.
Mas sombras, luz e seu deslocamento eram hipnotizantes.
E acabara se perdendo mais ainda no tempo.
Lembranças involuntárias e escondidas vieram-lhe a mente.
Sua primeira caminhada quando bebê, o primeiro beijo há tanto apagado…
Conseguiu controlar a memória.
Teve medo de se lembrar das drogas.
Não sabia se sentiria prazer ou náusea com a lembrança.
De qualquer maneira os dois eram mal vindos.
Fez o gesto de ver as horas. Esqueceu-se que seu relógio ainda não lhe fora entregue.
Reclamou com o psiquiatra que o acompanhava.
--- Isso não é esperar. É uma tortura. Tenho que saber quanto tempo se passou desde que falei com meu irmão. Isso de vocês não darem horário é uma loucura.
--- É mesmo? Rebateu o psiquiatra com um quase imperceptível sorriso. Calma, logo ele chega.
--- Logo quando?
--- Não sei. Mas deve ser logo. Não se preocupe. O sorriso fez-se mais perceptível e revelou-se ameaçador.
Ele decidiu ficar quieto.
Olhou novamente para o pulso sem relógio.
Contou alto o quanto demorava uma sombra para se mover.
O psiquiatra estranhou.
--- Você está nervoso. Quer um calmante leve?
Ele ficou mais desconfiado ainda. Não quis calmante nenhum.
--- Isso é algum teste, Dr? Uma prova de que não preciso mais de drogas? Um teste de lucidez?
--- Se você o encara assim… E o sorriso do psiquiatra abriu-se ainda mais.
Parou de contar as sombras.
Afastou-se do médico para fumar um cigarro – único vício permitido pela clínica.
Ficou contando lentamente o tempo que demorava para acabar o cigarro.
Depois contou involuntariamente os passos que o distanciava do médico.
Quando deu por si, estava novamente ao lado do psiquiatra.
Afastou-se novamente. Fumou outro cigarro.
Contando.
Contando.
Contando.
Um pardal, um bem te vi, duas rolinhas, 1 beija flor.
Contando.
Uma arvore, duas arvores, três árvores.
Contando.
Um médico, um enfermeiro, dois seguranças.
Contou até a clínica transformar-se em números improváveis num relógio mental em mau funcionamento.
Contou até ver o psiquiatra, não como um ser humano, mas como um zero à esquerda.
Então riu.
--- Dr, o senhor não passa de um horário sem sentido num relógio quebrado.
E riu mais ainda.
E começou a contar os risos que lhe escapavam compulsivamente e sem controle.
Quando o irmão chegou, quinze minutos depois, encontrou-o justamente no momento em que o amarravam numa camisa de força rindo sem parar e afirmando em plenos pulmões.
--- Vocês não passam de números loucos que marcam as horas de um relógio inútil.
O irmão chorou, mas assinou de bom grado uma nova internação.



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Mande fumo pro Curupira