A Justiça do Curupira Ranzinza – O Pajé Preso Injustamente

O Pajé não sabia por que estava atrás das grades. Não compreendia que esse era o castigo reservado aos inocentes que ousam buscar ajuda junto ao homem branco. E ele havia buscado ajuda. Nada mais que isso. Chegou àquela aldeia estranha, quente, feita de pedra perecível, com as mãos vazias e o espírito esperançoso. Combatera a morte da selva. O bom combate — não era assim que o homem branco chamava? — contra a miséria do espírito, contra as mazelas que eles anunciavam em cadeia nacional. Foi então que soube: os mesmos sujeitos que traficavam cocaína e envenenavam os rios com explosivos, tiros e caça esportiva, eram os que ele havia impedido de atravessar suas terras. E agora, esses mesmos homens enchiam os filhos do homem branco com veneno. Os apresentadores de telejornal pediam providências. Ele tomou providências. Pediu ajuda. Traçou um plano. Foi às autoridades. Estava aprendendo a lei — aquela que tingia o espírito do homem branco com o manto de uma noite sem lua. A lei do mais forte. Não como quem devora o corpo, mas como quem consome o espírito. O mais forte fere o mais fraco. Essa era a lei gravada a fogo no espírito do homem branco. Cada vez mais difícil de imaginar como criatura irmã. Talvez por isso discutissem tanto sobre seres de outros planetas, enquanto deixavam o seu morrer. O Pajé estava dominado pela escuridão. Dúvidas, impurezas, indignidades humanas que conduzem qualquer um à órbita pesada da injustiça — essa maneira tão banal de “acertar as coisas”. Para o homem branco, o Pajé era um incômodo. Criara um centro cultural para a garotada cabocla, ensinando a trabalhar com a floresta em pé, cultivando açaí, frutíferas, formando lideranças ambientais e mantendo o espírito da floresta jovem. Enfrentara os traficantes que usavam o rio para descer com cocaína. Usou suas últimas reservas anímicas para lançar seu espírito ao cosmos. Os traficantes riam com sujeitos de terno e gravata, constrangidos em seus sorrisos amarelos, mas de bolsos cheios e espírito regozijando diante de uma palavra: Caymãs. Na cela, o mais miserável dos mortais ouviu um grunhido suave ao pé do ouvido. Uma brasa iluminou o rosto do Curupira. Ele não estava bem-humorado. Seu corpo sangrava, mas o sangue refluía a cada batida do coração. Os pelos misturados com galhos envolviam os olhos de onça como um capuz. Uma harpia picava um rato em seu ombro. Podridão e frescor emanavam um odor que levava o Pajé à purga. — Vou lhe mandar fumo, cumpadi... Em breve. Mantenha o espírito forte. No dia seguinte, um guarda amanheceu sem sua arma. Ela estava sobre a mesa, desmontada e retorcida. A porta da delegacia aberta revelava pegadas que levavam a lugar nenhum. Circulavam o edifício, cruzavam-se e se perdiam na picada de mata mais próxima. Havia sangue nelas. E todos que passaram viram, durante o dia inteiro, o sangue ferver dentro das pegadas. À noite também. No dia seguinte, tudo sumiu. Todos viram ou ficaram sabendo. Pouquíssimos entenderam o que viria... Mas o medo foi devidamente instalado. O Protetor da Mata manifestara desejo de sangue. E sangue haveria. Não seriam esses poucos que cruzariam seu caminho. Os demais já teriam esquecido — e só lembrariam tarde demais. As coisas começaram a dar errado para os homens da delegacia. Primeiro vieram os urros. Indescritíveis. GROHHSHSSHHJHDRRRHHHGHRRKJJJLLSKKJEJIAKMKAMKD. Depois, o silêncio. Um silêncio que calava todos os bichos da noite. Horas de silêncio. E então, os bichos voltavam a cantar — só para serem calados por outro urro. Obedeciam a uma força que os comandava. O delegado encarregado era alvo dos olhares. Um índio novo, cheio de energia. Mas ele sabia o significado daquilo. Sabia que estava marcado. Olhou para seus homens, bravo: — O que estão esperando? Investigação! Vamos! Quero esse filho da puta aqui. Pra ontem! Quando todos saíram, o delegado sorriu, engoliu sua calibre 12 e explodiu os próprios miolos. Julgou isso melhor do que enfrentar o que estava por vir. O Praça Jr. olhou para trás e viu o clarão do tiro. Soube de imediato. Estava com o coração na mão. Ninguém estava brincando. Sempre teve medo da mata — de cobra, onça, saúvas. Entrara para a polícia para fugir da floresta. Mas esse medo era outro. Era a morte iminente. E a morte cantou seu canto. Suas pernas correram pela noite escura, sem que percebesse. Em direção a um lusco-fusco serpenteante, verde brilhante, movendo-se pela mata. Ele seguiu. E então parou. — Tem fumo? Se num tem, tá morto! O Curupira tomou forma diante dele, brotando do solo, incorporando folhas, pelos, penas, galhos. Os olhos de onça brilharam. O Praça Jr. tentou gritar, mas só conseguiu gemer: — Mãe... Antes que uma harpia lhe rasgasse a garganta de cabo a rabo. Na dianteira da patrulha, o Sargento Elias mascava chiclete de nicotina, puto da vida. Estava velho pra isso. Toda porra de lugar como aquele tinha lenda, mito, papo sobrenatural. E sempre tinha um imbecil querendo passar trote. Mas sua lanterna focou uma trilha quase imperceptível. Pegadas. Veio o urro: ROSOSHHSOSOSASAARSSSRRRRRRRRRRRRHRH!! E outro. Mais outro. Altos. Muito altos. Muito próximos. De todos os lugares. De lugar nenhum. Elias sorriu: — Estão ouvindo, cambada?! São eles! Os cagões sabem que estamos aqui e dão esses miados pra nos assustar. Mas aqui é tudo sacoroxo, é ou não é? Então... Chumbo neles! Avançaram pela floresta, atirando e brandindo facões. Mas não havia ninguém. Nem urros. Nada. Mais tarde, encontraram uma clareira. Do nada. Nela, trilhas. Pegadas. O cansaço era grande. A aurora se aproximava. O caminho sumira. Dividiram-se em três grupos. Apenas dois voltaram. Todos encontraram o mesmo lugar: a clareira. O urro veio com o nascer do sol. E só então lembraram-se do medo. Das pegadas. Do sangue. Do presságio. — KURUPI'R! — gritaram os policiais índios. — CURUPIRA! — gritaram os policiais brancos. E o homem branco não era mais temido. Ele temia. O solo os traiu. Virou lama, movediça, aquosa. Engoliu pés, pernas... lentamente. Enquanto o urro virava risada e o sol observava a patrulha integrar-se às entranhas da floresta. Quando o sol acordou o Pajé, era tarde. Havia sombras nos cantos. A luz batia em seus olhos. — Toma seu fumo, Pajé. Ele protegeu os olhos. Nas sombras, viu uma mão galhuda e peluda lhe oferecendo um cachimbo de barro em brasa. Ele fumou. Tinha sabor de liberdade.

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