DOS DIÁRIOS DO DUQUE BUKLOVSK, O VAMPIRO DO AMOR: O CÓDIGO DA ETERNIDADE

Brasil, 27 de Outubro de 2025

Vago no limbo.

Última lembrança: o coração explodindo na orgia com Casanova e Sade.

Não resisti, mesmo fragilizado na minha particular condição de humanidade saciada, às planícies rosadas e aos precipícios de uma tenra donzela. Morri. Para evitar escândalos, enviaram meu corpo à uma desconhecida província do mundo novo e por lá fiquei vagando pelos séculos.

Mas agora ressurjo.

Não por vontade. Não por fome. Mas por um chamado obscuro — o desejo mórbido de uma jovem devota dos túmulos.

Ela trajava vestes negras, adornadas com correntes e símbolos que desconheço. Seus olhos, fundos como criptas, fitavam o mármore de um mausoléu com reverência. Era uma sacerdotisa da decadência, uma cultuadora de cemitérios.

Aproximei-me, ainda envolto em panos de sepultura, com a pele ressequida e os ossos rangentes. Ela me viu. Gritou. Recuou.

Mas ao tocar-lhe o ombro, seu corpo estremeceu. Não de medo. De prazer.

O gesto, simples e involuntário, provocou nela um espasmo de deleite. Era como se minha presença, tão antiga quanto o esquecimento, tivesse ativado nela um código secreto — uma tara ancestral pela morte encarnada.

Ela caiu. Eu permaneci imóvel. Não saciado.

Ao lado do corpo da jovem, repousava um objeto de feitio estranho — um retângulo de vidro e metal, que emitia luzes e sons como um espelho encantado. A superfície tremia com imagens em movimento, vozes agudas e cores vibrantes. Parecia-me um teatro portátil, uma lanterna mágica que revelava os afetos da juventude moderna.

Observei com atenção. As vozes falavam de escândalos amorosos, danças tribais, disputas entre jovens cortesãos de aparência extravagante. Tudo era breve. Tudo era intenso. Parecia-me que em cada rosto, havia uma máscara.

Alcei o curioso artefato aos olhos. Minha tese confirmou-se. A maça do pecado original estampava-se proeminentemente sobre o metal barato. Deliciosamente desnuda por essa juventude que não só me alimentará, mas me tornará eterno. O que restara de minhas cordas vocais não pode conter um suave gargalhar:

Rurururorurarara

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