SONHO DE UM CAFÉ DA MANHÃ O amor de fato Aceita o ódio Carolina Andrade Podes encontrar mel Entre os vermes da Carniça? Sansão. No espelho que me reflete Residem o desengano e a paixão. O desengano me diz Que nunca vai ser assim. A paixão, que assim será. O desengano resmunga, A paixão suspira. Cético, O desengano diz “melhor desistir”. Suave, A paixão diz “melhor insistir”. Tento sorrir, mas não consigo. Acaso posso ignorar o que sou? E assim prossigo, O canto dos pássaros, Sábias, maritacas, bemtevis, São reflexos desses dois Animais de estimação, Que em mim residem. Num piado, os pássaros dizem “Durma” Em outro “Viva” Cerro as janelas, tapo os ouvidos, Vou pra cozinha, faço café. E as vozes opinam. “Amargo” “Doce” Prefiro forte, respondo. “Mas você é fraco” Retruca o desengano. “Valente” Grita a paixão. Inspiro, expiro. A cabeça já dói. A paciência se esgota. Respondo: Acaso, desengano, você sabe Os sonhos dos cavalos selvagens, A respiração das flores, A lenta alegria do salto do Jubarte, Os sorrisos dos botos, E ainda, a comunhão da tribo em histórias sagradas contadas à beira da fogueira? E você, paixão, já viu o horror Do sangue derramado Nos cruéis tiroteios inúteis, Que ceifam vidas e esperanças para o celeiro do nada? O terrível desespero das mães Nas ruas, chorando esmolas Para o leite dos filhos? O triste e malicioso sorriso Das crianças que, logo cedo, perderam a inocência, nos perversos estrondos de rojões que incendeiam os cumes das favelas? Já ouviu o som pungente da tirânica máquina de esmagar humanos que se transformou a vida? Calam-se, desconcertadas, As vozes em meu peito. E quando o silêncio destas duas forças Que em mim residem se faz presente, O sol da manhã toca meu rosto E na trégua deste instante Numa momentânea epifania, Estes dois inimigos se entrelaçam, E de minhas profundezas, Emerge um Amor tão grande, Que com um peteleco Numa migalha de pão, Seria capaz de mudar o mundo

Comentários

Postagens mais visitadas