O SABONETE HACKER

 



Acordara não cheirando a sabonete, mas fedendo sabonete.

Odiava cheiro fortes. Eles impregnavam a pele da gente.

Fediam.

E ela, agora, amanhecia fedida. Mesmo que o forte cheiro viesse de seu sabonete predileto.

“O que fizera ?”, pensou.

O cheiro não podia vir do nada.

Como pudera tomar um banho tão exagerado e anormal às suas regras e esquecer disso?

Era só e dependia de regras.

Para sobreviver, imaginava-se numa capsula navegando por algum canto do espaço em busca de algo que desconhecia.

Para sobreviver, era preciso regras.

E segui-las à risca. Qualquer erro, fatal.

E desrespeitar uma simples regra como a de tomar um banho inconsciente chocou-a.

Estranhou a situação.

Assustou-se.

Tinha que verificar os fatos, saber o que ocorrera, onde estava o erro, consertá-lo.

Foi ao banheiro.

Uma poça d’agua resistira a noite, indicando que realmente, tomara um belo banho.

Nenhum sabonete. Apenas espuma no ralo. Uma desprendeu-se da superfície e explodiu no seu nariz, numa absurda provocação.

Ficou brava. Foi à área de serviço. Pegou o esfregão.

Voltou ao banheiro, limpou o chão.

Ajoelhou-se, limpou as bolhas do ralo. Secou-o.

Molhou-se toda.

E a água que secara, impregnada de sabonete, deixou-a mais fedida ainda.

Suspirou, tirou as roupas, jogou-as no cesto de roupas sujas, tomou banho.

“Será que tive um episódio de sonambulismo?”.

Dormia muito mal há muito tempo.

Era consultora de segurança digital free lancer.

E hacker em tempo integral.

Estava decifrando um código particularmente difícil.

Estava tentando aplicar engenharia reversa numa IA particular.

Queria tornar o código aberto.

Para isso deveria trabalhar só.

Era essa a regra.

Mas agora, talvez, estivesse só demais.

Concentrada demais num desafio pessoal que nem lhe traria lucro.

Mas considerava o simples pensar em sair de casa, ver os amigos, tomar uma cerveja ou um café, que fosse, um pedido de pausa, quase derrota num jogo de xadrez estranho contra alguém que nem em carne existia.

“Que pensamento louco!!!!!”

Riu sózinha.

Gargalhou na verdade.

Não conseguia se controlar.

Desligou o chuveiro, enrolou-se na toalha, secou-se.

Gargalhando.

Vestiu-se, compôs-se.

Sentou à frente de seu sistema.

Devia seguir a ordem.

Suspirou, respirou lentamente.

Aquele era um momento sagrado para ela.

O momento em que ligava seu sistema e dava vida à parafernália de gadgets e salameleques digitais de sua pequena casa, era o momento em que falava com e para o mundo.

E nesse caso, o mundo falava com ela.

E isso era raro, sagrado, um rito.

A seriedade, aqui, nesse momento, era regra de ouro.

Mas ela riu:

“Danem-se as regras”

E digitou no console conectado à IA que pretendia derrotar:


Python:


# Representação simbólica da palavra "cheque mate"

def movimento_final():

jogada = "cheque"

desfecho = "mate"

resultado = f"{jogada} {desfecho}"

return resultado


print(movimento_final()) # Saída: cheque mate


Num piscar de olhos, sua tela ganhou vida, quando o código fonte da IA abriu-se para ela.

Ela gargalhou até cansar.

Não percebeu que foi tomar banho antes de dormir.

Nem que tudo o que escrevera foi apagado.

E no dia seguinte, acordou com um dejávu terrível com cheiro de sabonete.



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