O VAMPIRO DO AMOR

Ele estava tão solitário que convidaria um vampiro para lhe fazer companhia. Na mesma hora em que teve esse pensamento, riu. De onde vinha essa ideia? Não gostava de vampiros. Ou buscavam um tolo amor perdido ou tolas convivências com o ser humano ou outras monstruosas criaturas que sempre terminavam em guerras inúteis. Drácula era um viúvo mal resolvido. De imediato, estranhou porque essa frase utilizou a palavra víuvo. Este era um conceito estranho para ele. Não casara-se nem tivera qualquer outro relacionamento que exigisse compromisso. Era um cara social por necessidade. Para bem conviver com as pessoas. Mas, nessas ocasiões, voltava o mais rápido possível para casa. No geral era feliz com sua solidão voluntária. Mas tinha crises existenciais. Quando sua solidão era questionada, sofria. Como estava sofrendo agora. Outra crise, pensou. Então ficou mais aliviado e prestes a fazer as pazes consigo mesmo. Era profissional free lancer, escrevia documentos. Ofícios, discursos, petições, recursos legislativos e executivos, enfim. Trabalhava como escritor técnico de documentos públicos e privados. Dominava esse tema e era solicitado. Um escriba, como ele a si se chamava. Tentava escrever seus próprios projetos literários. Ficções. Sempre de maneira frustrante. Nunca conseguia ser o artista que pretendia ser. E o projeto era engavetado em seu vasto arquivo morto. Então preferia passar as horas vagas lendo algo que o interessasse, algum filme ou série que o divertisse sem compromisso. Qualquer coisa que o livrasse da frustração de não ser o escritor que queria ser. Só com isso conseguia uma relativa paz consigo mesmo. Estava perdido nessas divagações quando percebeu que sua mão direita estalava os ossos das juntas dos dedos involuntariamente. Ele assustou-se. Nunca teve essa reação. Para ele pareceu um grito de revolta uma exigência de liberdade e autonomia. Quase de consciência. Outro estalo. Dessa vez a mão esquerda estalara as juntas dos dedos. Desta vez, deu pulos, os braços livres, suas mãos sacudindo ao ritmo dos exercício. As mãos voltaram ao seu controle. Estou em crise. Tenso sem saber porque, concluiu Decidiu dar uma volta. Sair. Tomar um ar. Pegou o casaco, abriu a porta de casa. Fechou-a. Sem saber porque. Involuntáriamente. E novamente o susto. Em outro impulso trancou a porta com todas as chaves que ela dispunha. Era como se não quisesse deixar algo entrar em sua casa ou então algo sair dela. Ou pior, os dois. Era a solidão que uivava, disso tinha certeza. Só não sabia onde ela uivava. E isso o apavorava. Sentiu um calafrio. Um arrepio na nuca. Uma imagem na mente: Um velhinho vampiro sorrindo enquanto morde uma bela mulher nua. A imagem era mais sedução do que terror ou mesmo alimentação. Era uma manifestação de uma tara divertida. E ele gargalhou alto com a descoberta. Riu e gargalhou por muito tempo. Então sentou-se à mesa e começou a teclar no notebook. Ao ritmo do teclado, perdeu a noção do tempo. Quando deu por si estava escrevendo “fim” em Buklovisk, o Vampiro do Amor. Assinou como se fosse o próprio vampiro. E a novela foi a primeira de muitas que se tornaram um sucesso no meio das revistas eróticas baratas. O que lhe rendeu várias e severas críticas e alguns inimigos. E considerável riqueza. O que o tornou mais solitário ainda. Aceitara a fortuna, claro. Mas recusara a fama escondendo-se num confortável pseudônimo. Mas, desta vez, sua solidão era pacífica, alegre e bem resolvida. E ele descobriu que apenas descrevia as taras divertidas – para ele – de seu inconsciente. De suas íntimas trevas erógenas. O que achou ótimo. Nunca poderia imaginar que, por bem ou por mal, tornaria-se um autor. Nem que expor suas taras fossem tão prazeiroso. Muito menos que fazer fortuna rápido, fosse tão divertido.

Comentários

Postagens mais visitadas