A FRASE PERFEITA

 






   

Ela é uma adolescente bonita e talentosa. Respeitada por todos. 

Mas, artista e melancólica, terminava por afastar os amigos.

Aos fins de semana, era ela que os procurava.

Sempre era bem tratada, ainda que com breves frases e com um 

tempo insuficiente para suas carências.

Tratavam outros amigos com mais atenção, ela sabia.

Com tempo suficiente para lotar seus perfis nas redes sociais de 

felizes storys com produção e maquiagem.

Com tantos storys sorridentes de uma festa, estavam ocupados 

mesmo.

Não tinham tempo para ela nos fins de semana.

Estavam preocupados demais em se divertir.

E ela, lá, trabalhando, modelando um busto de uma amiga.

Parou de modelar o barro na hora.

Fechou suas redes sociais.

Guardou o celular.

Chorou.

Gritou.

Olhou para o busto.

Gritou.

Esmigalhou o barro e o busto lentamente.

Como se o seu doloroso conflito de sentimentos pudesse ser 

descontado no molde que escorria de seus dedos em finas nuvens de 

barro.

Depois, um longo, extenso e escuro silêncio.

Então, mordendo os dentes, tirou o celular do bolso.

Escreveu o seguinte:

Prefiro a dor da solidão do que mendigar farelos do seu afeto.”

Num ímpeto enviou a frase como mensagem a todos os seus amigos.

Arrependeu-se no instante seguinte.

Pouquíssimos segundos atrás pensara que o envio da frase era um 

gesto catártico: “não preciso de você!”

Agora percebia que era o últimato da mendicância afetiva.

Preciso de você mais do que nunca.”

Seu tiro saíra pela culatra.

--- Merda - gritou enquanto, com um tapa, destruía o pouco que 

sobrara do rosto da amiga modelado em barro.

Nada de liberdade ou redenção nas mensagens instantâneas.

Percebeu que dentro da prisão da carência afetiva insaciável, estava 

enjaulada pelas grades de sua abstinência de qualquer breve migalha 

de carinho.

Sua reflexão foi interrompida pelo súbito som de uma mensagem 

chegando. Duas. Três. Uma mensagem atrás da outra.

--- Merda.

Sem pensar, clicou no celular para visualizar as mensagens que não 

paravam de chegar.

Por curiosidade, em um instante, leu todas as mensagens.

Ficou chocada.

Emudeceu o celular.

Mas irritou-se com sua frenética vibração.

Tentou ativar o modo offline, não teve, por algum motivo, coragem.

Por poucos dias, o celular vibrou sem parar, esquecido dentro da 

mais funda gaveta de seu armário.

Mesmo assim, terminado o dia, ela lia as mensagens. Responde-las 

estava fora de cogitação.

Não tinha estrutura para isso.

Eram tantas...

Indignadas, comovidas, intrigadas, raivosas e até cúmplices.

Não sabia o que fazer.

E o silêncio foi sua resposta.

Então tudo parou.

As vibrações do celular foram tornando-se cada vez mais esparsas.

Finalmente o celular ficou em pacifica imobilidade.

O estúdio voltou a ficar calmo.

E ela, sem as mensagens não respondidas, sentiu um confortável 

vazio.

A solidão abateu-se sobre ela, não mais como dor, mas com uma 

estranha paz.

Idêntica à que sentia o celular imóvel na gaveta.

Resgatou os poucos pedaços inteiros que sobraram da destruição do 

busto que moldava.

Aqueceu-os até ficarem maleaveis.

Costurou-os como se moldasse um quebra cabeças mal resolvido.

Gostou do resultado.

Era a imagem do que sentia.

Abstrata e estética.

Estava enfim livre. No fim, sua frase impensada a libertara.

Riu.

--- A vida é uma comediante. - disse.

E riu mais alto ainda.



FIM 

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