O CORTADOR DE SAPATOS - FINAL
O senhor era idoso e sem filhos.
Tratou-o bem, deu-lhe teto, alimento e uma profissão.
Quando o velhinho morreu tinha 14 anos e sabia tudo sobre o ofício de cortador de sapatos.
Bonito, habilidoso e bem treinado, chamava a atenção.
Não demorou muito e fez sexo pela primeira vez com uma mulher mais velha, cujo rosto não mais lembrava.
Foi seu gesto de liberdade
Definitvamente, ele só a ele pertencia.
Nunca mais viu a mulher com que transara pela primeira vez. Ela mudou-se ou algo assim, já nem lembrava.
Só lembrara dele no sonho.
Foi ao banheiro, mais uma vez desdobrou o couro.
Era bonita, pensou.
Mas não sabia definir o que era bonito na imagem dos amantes.
Voltou à bancada, absorto, sem perceber que à sua frente, balançava livremente a imagem dos amantes.
O supervisou viu aquilo. Deu bronca. Chamou o gerente.
O gerente olhou a imagem.
Seus olhos brilharam.
--- Vc consegue fazer outras dessa?
--- Acho que sim, patrão.
--- Ótimo, ótimo. Isso vai dar grana. Concentre-se apenas nessa imagem, vou deixar seu serviço para outra pessoa.
E lá se foi o gerente bem humorado para o espanto do supervisor e da estranha expressão de tristeza que se estampou no cortador de sapatos.
Lentamente voltou ao seu posto.
Cortou couro por mais quinze minutos.
O supervirsou o interrompeu e largou em sua bancada uma caixa lacrada e cheirando a couro.
--- O gerente quer que você vá para casa e trabalhe apenas na sua pornografia. Você é um homem de sorte. Pouco trabalho, muita grana e com sexo, ainda por cima.
Enxotou o cortador de sua bancada.
Ele voltou para casa com a caixa de couros lacrada.
Não teve coragem de contar a verdade para a mulher. Apenas disse que o gerente queria que ele fizesse umas imagens bem eróticas.
Não disse nada sobre a origem das imagens e ela, embora contrariada e aborrecida, teve que aceitar.
Partiu para o trabalho.
Cortou, cortou, cortou.
Nada era como o que fizera pela primeira vez.
Então estendeu os amantes a sua frente, tomou medidas exatas, desenhou-as no couro e cortou.
Não era como o que fizera pela primeira vez.
Ele cortou por toda a noite, sempre insatisfeito com o resultado de seu trabalho.
Ao amanhecer as fracassadas imagens estavam prontas. Juntou-as, amarrou-as, jogou-as numa mochila, vestiu-se e foi trabalhar.
O supervisor levou-o direto à sala do gerente.
O cortador de sapatos abriu a mochila e entregou o pacote de imagens ao gerente.
O gerente abriu o pacote rapidamente e estendeu algumas imagens diante de si.
--- Ótimo, ótimo.
Tirou uma caixa da gaveta, abriu-a e, de lá, retirou a imagem original
Estendeu-a acima das outras, olhou tudo com atenção, moveu a imagem original ao lado de cada reprodução.
--- Ótimo, ótimo. Vamos ganhar muito dinheiro com isso meu rapaz. Eis seu pagamento.
O gerente sacou o celular, acessou o aplicativo do seu banco, recebeu a chave pix do atônito cortador de sapatos.
O gerente pagou-lhe mais do que um mês inteiro de trabalho incluindo horas extras.
--- Você vai receber duas caixa de couros finos do supervisor. Faça mais disso. Se fizer o dobro, o pagamento dobra.
Ele não queria mais fazer aquilo, fora dolorosa e, para ele, sem resultado.
O Pix forçou-o a continuar. De imediato transferiu a quantia para sua mulher, que as administrava.
A família em primeiro lugar.
Mas essa ideia, pela primeira vez lhe pareceu triste.
Despediu-se do patrão estranhando-se.
Chegou em casa sem se lembrar como.
A mulher olhou as caixas entre seus braços.
--- Mais?
Ele quase chorou ao dizer “Sim”. Mas fez-se de cansado. Disse que precisava tomar banho.
Lá chorou em paz.
E nunca mais sonhou.



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