O ÚLTIMO PACTO VII–A FORTE E O FRACO
Marcos me conheceu primeiro. Era meu colega na faculdade de letras. Eu fazia porque amava literatura, ele porque foi o único lugar onde passou.
Ele, ou melhor, o papai rico dele tinha, uma grande loja importadora de carros esportivos. Sei porque todo o dia ele vinha com um carrão. Lamborghuinis, Maclaren, Bugatti, Porshe e Ferrari. Mas não fazia isso para se gabar. Fazia para usar o carro como uma armadura. Era sua colega de classe. Marcos era tímido. Mal respondia a chamada e nunca respondia perguntas dos professores, a não ser que o obrigassem.
Mas Marcos tinha uma espécie de dom da Invisibilidade.
Ele aparecia mais com seus carros que não eram seus.
Fora deles, era invisível, camuflava-se, fundia-se com o ambiente.
Ninguém reparava nele.
E olha que Marcos era um cara bonitão. Não era alto, mas tinha cabelos cacheados negros, olhos de um azul profundo, quase negro, muito magro. Um cavanhaque sempre bem cuidado e cheiroso completava o pacote.
Quando contei de Marcos e seus carros para Gilda ela se interessou.
--- Mas é justamente o que estou procurando, Gi! Um homem nota dez. Carro oito, personalidade dois.
Riu-se. Oras, eu ri.
Era uma definição perfeita.
--- E ele é rico, mana – completei.
--- Sério?
--- Se quisesse, teria todos os carros que vende. Mas ele me segredou que gosta mesmo é de um Camaro Grafitti, todinho tunado, até com nitroglicerina, Gil! Ele gosta de apostar no próprio carro. Não corre, mas contrata alguém para pilotar e está sempre nos rachas de ruas.
--- Sério?
--- Não sei direito, Gil. Estávamos numa festa e muito doidos, havíamos comido space cake e tomado todas. Daí estávamos sós. Acho que tentou me beijar, fingi que não percebi, daí ele começou a falar tudo isso.
--- Sério?
--- Ai meu Deus! O que você está pensando, Gil, conheço essa sua cara mana. Quando você se ilumina assim, lá vem arte.
--- Maninha, sua tola. Você já devia ter ficado com esse cara, bobear até namorado.
Silêncio.
--- Eu vou casar com ele, Gi!
Silêncio.
--- Fala para mim onde é a tal concessionária, vai diz.
Dei o endereço para ela.
--- Todo homem fraco tem que ser governado por uma mulher forte. Se o cara é bonito, rico e fraco, então eu sou o antídoto e o tônico para colocar esse sujeito na linha e viver como uma princesa. Quem sabe não viro rainha.
Então vestiu-se com seu vestido florido transparente e curto, passou seu melhor perfume, ajeitou os cabelos, maquiou-se de leve e com um sorriso foi encontrar o homem que se tornaria noiva.
Mal sabia ela que os fracos, quando muito pressionados, reagem não com força, mas com esperteza.
E os fortes, caso um dia tenham sido ousados e espertos, com o poder, relaxam.
Os fracos, então, com suave precisão, cortam-lhe os tendões.
Os fortes então, ruem, caem, morrem...
Mas quem poderia imaginar isso quando Gilda apareceu na importadora do pai de Marcos absolutamente fascinada por um Bugatti?
Como era de se esperar, Marcos achou que era eu e logo foi falar com sua amiga:
--- Gisele, que prazer ver você aqui. Tem bom gosto. Esse Bugatti é uma máquina de voar baixo em qualquer situação.
Gilda tinha um jogar os cabelos para trás que era só dela. Nem eu conseguia imitá-la.
E foi o que fez.
Foi quando Marcos percebeu que não era eu.
--- Pois então, querido Marcos… Porque não me leva para um test drive e mostra isso pessoalmente?
Gilda, depois, contou-me que quase teve que estuprar Marcos dentro do carro. Cuidou de tudo. Uma desculpa esfarrapada para parar à sombra de um bosque muito dela conhecido, fingir-se excitada, tirar a calça e a camisa do moço. Marcos só deu por si quando estava nu.
E ao ver a linda mulher nua a sua frente sorrindo toda e com o corpo todo o esperando, acordou definitivamente.
E foi quando soube que estava perdidamente apaixonado por Gilda.
“Estou condenado”, pensou, sem saber direito porque, quando finalmente alcançou um orgasmo.
E repousou a cabeça no colo nu de Gilda.
--- Acho que não te conheço mas te amo.
--- É melhor que ame mesmo bebê. Porque te amo tanto que me sinto até uma mamãe com o filhinho no colo, seu bobo.
E beijaram-se com o carinho de novos namorados.
E naquele momento, apesar de movida por interesse predatório, Gilda amou Marcos de verdade…
Depois, sim, racionalmente, ficou noiva e administrou o homem nota dez que tanto queria.
E morreu por causa disso...


Comentários
Postar um comentário
Mande fumo pro Curupira