O ÚLTIMO PACTO V– O ALÉM NÃO É ALI!

Eu não deveria estar escrevendo essa história. Não num momento como vivemos. Decadentes, belicosos, travando guerras insanas. Deveria silencia-la, sufoca-la, esperar toda a dor que me causou passar. E simplesmente seguir com a vida. Pois conta-la pode abalar a fé de muita gente de espírito fraco. E devemos ficar compadecidos desses pobre coitados. Respeitar.
Sempre achei que quem cala não consente, mas dá a melhor resposta.
Mas devo escrever. senão estaria sendo desonesta com Gilda.
Pensar nela me faz seguir em frente.
Mas também escrevo para defender minha sanidade.
Pois tudo em que acreditava me foi arrebatado.
E Gilda viu tudo.
Soube tudo.
Minha irmã gêmea.
Morta num acidente estúpido de carro.
Ela me falou. Apareceu para mim. Falou sobre a vida após a morte, uma não vida.
Disse o que iria fazer.
E que eu iria testemunhar o horror de sua vingança.
Gilda era bem assim. Falava-me tudo o que iria fazer.
Éramos totalmente opostas em personalidade.
Ela faladeira, perguntadora, querendo diálogo, debate e show.
Eu, quieta, no meu canto, livro debaixo dos olhos, fones de ouvidos metidos na orelha, olhando para tudo e para todos tomando notas mentais e suspirando por papel e caneta ao invés do celular.
Eu sou meio freak mesmo.
Coisas como o que passei com Gilda não são para pessoas normais.
Pessoas que simplesmente seguem a vida, acreditam nela, prosseguem.
Não vêem a prisão danada que é essa desgraçada.
Eu não acredito na vida.
Nunca acreditei.
Apenas com Gilda, tive um vislumbre de vida.
Ela não existia em mim.
Gilda me ensinou a viver.
Não somente existir.
Ensinou-me a importância do prazer, da amizade, da boa prosa.
Falou-me depois que tudo viraria material para minha literatura.
Pois Gilda decidira que me tornaria uma escritora de sucesso.
Quem dera.
Mas já me estendi demais falando sobre mim.
A história é de Gilda, ou melhor de seu fantasma, ou seja lá o que ela se tornou no que, aqui, erroneamente, é chamado além vida.
Gilda me falou que não há nada além.
Que tudo é próximo, mas distante.
Sombras e luzes. Recortes. Preto e branco. Sem cinza.
E que podia ver tudo.
Tudinho.
Foi então que soube quem era o culpado real de sua morte.
Não o idiota do Marcos, seu noivo, um fraco dirigindo um carro mais potente que ele.
Fora pior. Muito pior.
Foi o coach de Marcos: Jacques Carneiro Primus.
Essa é a história de sua vingança além túmulo.
E como esse Além é muito diferente do que ousamos um dia imaginar em nossas religiões…


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